Acordei disposta hoje... O dia estava
radiante. Sábado chegou com toda a polpa! Fui até a janela... Meu jardim era
fresco. Não tinha flores. As mangueiras
traziam uma sombra agradável... O cheiro subiu... Cheiro delicado... Cheiro
doce... Cheiro bom... Seria um perfume? Sai do quarto... Não ouvi nenhum
barulho... Estavam todos dormindo... De quem seria esse cheiro?
O dia foi passando, o cheiro do almoço
substituiu o cheiro do café forte... O cheiro era cada vez mais forte... Uma
agonia começou a surtir no meu peito. Uma tristeza subiu em meu ser... Senti
vontade de chorar o dia todo... Era um cheiro perturbador para uma pessoa como
eu. Uma pessoa que passava muito tempo sem sentir o cheiro das coisas. Eu tinha
sentido isso uma vez, quando eu fui a um enterro... Algumas lágrimas caíram do
meu olho direito... Um silêncio silencioso, ocioso, apareceu... Era
aterrorizante... Todos estavam próximos a mim. Mas o cheiro ia crescendo cada
vez mais... Peguei perfumes diversos e coloquei a minha volta pra poder dissipar
o cheiro... Os perfumes não chegavam nem perto... Meu coração começou a
palpitar rápido, minhas mãos começaram a soar frio, comecei a ficar tonta... De
repente não vejo, não ouço, não sinto nada...
Acordei num quarto branco, com luzes em
todos os lugares. Teto branco. Chão branco. Cortinas brancas. E um cheiro
enorme de flores. Cheiro sufocante. Tentei me levantar, mas não possuía forças
para isso... Eu estava presa por cordas invisíveis?
Só poderia ser. Estava frio. Estava começando a ficar com medo... Eu estava
verdadeiramente ficando com medo. Medo. Não havia ninguém próximo a mim. Eu
estava só. Fechei os olhos... Eu tinha que me lembrar de alguma coisa... Eu tinha
que fazer algo... Eu iria enlouquecer se continuasse parada ali. Tinha que me
distrair com alguma coisa. Pensei em minha avó. Pensei na minha mãe. Pensei em
Inna, Myla, Lih, Nuno, Peh. Pensei na Bethy. Pensei nas lembranças mais
felizes. Nas mais dolorosas. Criei uma série de perguntas sobre eles e comecei
a responder. Quando eu já não tinha mais o que pensar sobre eles, lembrei das
pontes de Recife. Pensei em Juanes. Pensei e repensei em todas minhas irmãs e
no meu Irmão. Lembrei-me que eu tinha um relatório a entregar em duas
semanas...
O cheiro de rosas novamente... Pensei em
Deus. Seria um aviso isso? Eu não estava entendendo... Seria a morte de alguém?
Seria... O que seria? Minha cabeça não suportava a ideia da morte. Acreditava
que a morte viria na hora certa. Mas... Não gostava do fim das coisas. Ao menos
nesse plano terrestre.
Tempo depois, não sei dizer quanto tempo
levou... Talvez uns cinco segundos, uma hora, doze dias... Cai num sono tão
profundo... Tão profundo que nem ousei insistir para acordar... Já não sentia
nada em relação ao meu corpo. Já não sentia o tempo. Eu estava presa naquela
cama... Seria uma cama? Não sei. Em absoluto em não sei onde eu me encontrava.
Senti uma brisa marinha nos meus cabelos...
Senti o cheiro do mar... O dia está tão lindo... O sol ao fundo, o céu num azul
mais delicado que eu conhecia... Com parcas nuvens... O tempo... Que tempo?
Dias como o que eu estava vivendo, ali na praia, era imensurável... Imedível. A
minha volta se encontravam pessoas... Pessoas que a muito tempo eu não via...
Estavam rindo... Estavam felizes... As crianças... Minha família em peso se
encontrava ali... Era lindo. Era perfeito. Estavam ali pessoas que nem se
falavam mais... Estava uma paz que há muito tempo eu não encontrava... Ninguém
se preocupava com contas, ninguém tinha em mente as confusões diárias que
passavam na TV, não tinham medo de nada... Estavam... Verdadeiramente...
Tranquilos. Engraçado... Eu não sabia o que estava acontecendo comigo... Só
sabia que por alguns instantes o cheiro das flores não me incomodavam mais...
Nada do pensamento do medo de achar que não iria conseguir alcançar meus
objetivos... Olhei o céu... Quem iria se importar se iria chover? Que ficaria
tarde para voltar para casa? Eu estava em paz... Numa paz tão boa... Tão tranqüila...
Verdadeiramente alegre.
Estava de volta aquela sala branca...
Estava só novamente... Quando isso iria parar? Estava tão bem... Eu queria ter
continuado naquele lindo lugar. Parecia que eu estava em Fronteira. Fronteira
era uma ilha entre o oceano Pacífico e o Atlântico... Os dias eram belos e as
noites tortuosas... Fiquei com medo quando visitei essa ilha... Pensei que
seria ótimo... Eu iria aprofundar, por duas semanas, meus estudos em Oceanografia.
Nunca mais iria aparecer naquele lugar... Nunca.
Algo gelado toca em meus lábios... Algo
duro é colocado em minhas mãos. Alguma coisa aperta meu pescoço. O cheiro de
flores novamente atormenta meu ser... Eu já não sabia se me encontrava viva ou
morta... Só desejava que esse cheiro sumisse. Findasse...
Um arrepio veio e levou de vez o
cheiro... Meus olhos se abriram.
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