domingo, 22 de julho de 2012

Cheiro de flores


Acordei disposta hoje... O dia estava radiante. Sábado chegou com toda a polpa! Fui até a janela... Meu jardim era fresco.  Não tinha flores. As mangueiras traziam uma sombra agradável... O cheiro subiu... Cheiro delicado... Cheiro doce... Cheiro bom... Seria um perfume? Sai do quarto... Não ouvi nenhum barulho... Estavam todos dormindo... De quem seria esse cheiro?
O dia foi passando, o cheiro do almoço substituiu o cheiro do café forte... O cheiro era cada vez mais forte... Uma agonia começou a surtir no meu peito. Uma tristeza subiu em meu ser... Senti vontade de chorar o dia todo... Era um cheiro perturbador para uma pessoa como eu. Uma pessoa que passava muito tempo sem sentir o cheiro das coisas. Eu tinha sentido isso uma vez, quando eu fui a um enterro... Algumas lágrimas caíram do meu olho direito... Um silêncio silencioso, ocioso, apareceu... Era aterrorizante... Todos estavam próximos a mim. Mas o cheiro ia crescendo cada vez mais... Peguei perfumes diversos e coloquei a minha volta pra poder dissipar o cheiro... Os perfumes não chegavam nem perto... Meu coração começou a palpitar rápido, minhas mãos começaram a soar frio, comecei a ficar tonta... De repente não vejo, não ouço, não sinto nada...
Acordei num quarto branco, com luzes em todos os lugares. Teto branco. Chão branco. Cortinas brancas. E um cheiro enorme de flores. Cheiro sufocante. Tentei me levantar, mas não possuía forças para isso...  Eu estava presa por cordas invisíveis? Só poderia ser. Estava frio. Estava começando a ficar com medo... Eu estava verdadeiramente ficando com medo. Medo. Não havia ninguém próximo a mim. Eu estava só. Fechei os olhos... Eu tinha que me lembrar de alguma coisa... Eu tinha que fazer algo... Eu iria enlouquecer se continuasse parada ali. Tinha que me distrair com alguma coisa. Pensei em minha avó. Pensei na minha mãe. Pensei em Inna, Myla, Lih, Nuno, Peh. Pensei na Bethy. Pensei nas lembranças mais felizes. Nas mais dolorosas. Criei uma série de perguntas sobre eles e comecei a responder. Quando eu já não tinha mais o que pensar sobre eles, lembrei das pontes de Recife. Pensei em Juanes. Pensei e repensei em todas minhas irmãs e no meu Irmão. Lembrei-me que eu tinha um relatório a entregar em duas semanas...
O cheiro de rosas novamente... Pensei em Deus. Seria um aviso isso? Eu não estava entendendo... Seria a morte de alguém? Seria... O que seria? Minha cabeça não suportava a ideia da morte. Acreditava que a morte viria na hora certa. Mas... Não gostava do fim das coisas. Ao menos nesse plano terrestre.
Tempo depois, não sei dizer quanto tempo levou... Talvez uns cinco segundos, uma hora, doze dias... Cai num sono tão profundo... Tão profundo que nem ousei insistir para acordar... Já não sentia nada em relação ao meu corpo. Já não sentia o tempo. Eu estava presa naquela cama... Seria uma cama? Não sei. Em absoluto em não sei onde eu me encontrava.
Senti uma brisa marinha nos meus cabelos... Senti o cheiro do mar... O dia está tão lindo... O sol ao fundo, o céu num azul mais delicado que eu conhecia... Com parcas nuvens... O tempo... Que tempo? Dias como o que eu estava vivendo, ali na praia, era imensurável... Imedível. A minha volta se encontravam pessoas... Pessoas que a muito tempo eu não via... Estavam rindo... Estavam felizes... As crianças... Minha família em peso se encontrava ali... Era lindo. Era perfeito. Estavam ali pessoas que nem se falavam mais... Estava uma paz que há muito tempo eu não encontrava... Ninguém se preocupava com contas, ninguém tinha em mente as confusões diárias que passavam na TV, não tinham medo de nada... Estavam... Verdadeiramente... Tranquilos. Engraçado... Eu não sabia o que estava acontecendo comigo... Só sabia que por alguns instantes o cheiro das flores não me incomodavam mais... Nada do pensamento do medo de achar que não iria conseguir alcançar meus objetivos... Olhei o céu... Quem iria se importar se iria chover? Que ficaria tarde para voltar para casa? Eu estava em paz... Numa paz tão boa... Tão tranqüila... Verdadeiramente alegre.
Estava de volta aquela sala branca... Estava só novamente... Quando isso iria parar? Estava tão bem... Eu queria ter continuado naquele lindo lugar. Parecia que eu estava em Fronteira. Fronteira era uma ilha entre o oceano Pacífico e o Atlântico... Os dias eram belos e as noites tortuosas... Fiquei com medo quando visitei essa ilha... Pensei que seria ótimo... Eu iria aprofundar, por duas semanas, meus estudos em Oceanografia. Nunca mais iria aparecer naquele lugar... Nunca.
Algo gelado toca em meus lábios... Algo duro é colocado em minhas mãos. Alguma coisa aperta meu pescoço. O cheiro de flores novamente atormenta meu ser... Eu já não sabia se me encontrava viva ou morta... Só desejava que esse cheiro sumisse. Findasse...
 Um arrepio veio e levou de vez o cheiro... Meus olhos se abriram.


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