quinta-feira, 7 de março de 2013

Promessas - capitulo 3


Quem foi que fez que os corredores fossem tão frios? Gelados? Alguém poderia ter me feito o favor de me avisar. Às sete da manhã eu fui, finalmente, para o quarto em que ela se encontrava. Ela dormia tranquilamente, sua respiração fazia com que os seios dela subissem vagarosamente. Um traço de sorriso se formou em meus lábios ao ver, por apenas cinco segundos, que tudo estava aparentemente como antes. Sentei ao lado dela e a toquei na mão. Foi quando notei aquelas agulhas nela... Aqueles tubos que estavam levando... Soro? Ou algo do gênero.  Uma doutora, ou algo do tipo, entrou na sala.
- O senhor é? –
- Eu sou o marido dela – falei prontamente.
- Queira me acompanhar – Notícias? Logo agora? Será que eu queria saber, realmente, a verdade? Será que seriam notícias boas? Ou ruins? Era melhor mesmo eu saber? Eu poderia... Poderia? Eu vou... Eu vou? Eu...
- Senhor? – Temia  a verdade, mas fui mesmo assim.
Notícias boas não vieram. Entrei numa gélida sala, com uma cadeira branca e fria e um velho... Um terrível homem que me deu notícias que não me agradaram. Ele disse que o risco dela sair bem do coma era... Eram pequenos... O coma dela poderia demorar semanas, meses... Até anos... Será que eu poderia? Sai pelos corredores... Não havia nada e nem ninguém naquele frio corredor eternamente solitário... Fiquei na porta do quarto dela e fiquei vendo ela ali... Ela estava ali e não mais... Por até quanto tempo... Por até quanto tempo? Tinha vontade mesmo era de gritar. De fugir... Queria ter a minha mãe ali, do meu lado. Sentia-se só no mundo. Completamente só. Saiu mais rápido possível de lá. A cabeça latejava... Estava noite... Eram apenas sete da manhã quando eu tinha ido, pela primeira vez, vê-la... Agora... Era noite... Quantas horas? Não sei ao certo... Não tinha percebido quanto tempo havia se passado... Talvez um século?  Talvez dois? Quem sabe três? A lua iluminava aquele belo céu. As estrelas faziam uma bela companhia.  As estrelas eram pingos de esperanças que hora e meia eram regadas pela lua. Era magnífico o céu à noite. Eu precisava de uma estrela daquelas para me orientar. Foi ai que lágrimas foram libertadas... Lágrimas quentes. Solidão... Desespero... Desamparo... Medo... Raiva... Inquietude... Frio... Perda... Insegurança. Será que ela havia sentido algo parecido? Tínhamos tanto tempo juntos... Às vezes eu até burlava um pouco... Às vezes eu inventava desculpa para não está do lado dela... Eu a amava, mas... Não sei... Às vezes fazia isso, confesso agora, por imaturidade... Lembrei... De algo... Há um século, para o que parecia... Ainda namorávamos...
 – Eu vou ter que viajar. Passarei alguns dias em... – Ele assim falara.
– Não precisa se justificar. Eu já entendi que a sua viagem é precisa. – eu disse
– Às vezes eu esqueço o quanto você é compreensiva.
– Quando você vai?
– Amanhã.
– Já?
– Já.
– Foi por isso que você esperou até a hora da despedida para me contar?
– Por isso? – Ele não entendera.
– Você não quis que eu ficasse preocupada ou que ficasse pensando na sua viagem.
– Isso. Eu não queria que você ficasse... Eu sei que você entendeu.
– Boa viagem, querido. – Me virei para a porta de entrada do lar dele.
– Vai já?
– Tenho que ir. Do contrário, ficará tarde para eu voltar.
– Vai assim?
– Assim como? – agora fui eu que não entendi.
– Sem um beijo?
– Até dois. Queres me acompanhar até a parada?
– Sempre.
Dois dias depois...
O telefone da casa dele toca. Ele reconhece o número.
– Mãe, é ela. Atende, sim?
– Sim.
– Alô?
– Alô! Dona Glória? É a...
– Eu sei quem está falando. – Ela disse isso num tom bem gentil. – Eu reconheceria a sua voz em qualquer lugar. – se antes eu estava com vontade de falar com ela, depois disso aumentou consideravelmente. Eu tinha que encontrá-la.
– Tudo bem?
– Tudo. E com você?
– Vou... Bem. Bem, eu acho. Eu gostaria de poder ir ai, conversar um pouco com você. Posso?
– Quando?
– Eu sei que podes estar ocupada, mas se tiver, tudo bem. Mas tem como ser hoje?
– Agora à tarde?
– Isso mesmo.
Ela olhou para o filho, que se encontrava a sua frente e pensou no que responder. Ele não havia viajado e não falara nada para a namorada.
– Pode sim, minha querida.
– Em breve estarei ai.
E o telefone foi desligado pelas duas.
– Ela vem pra cá.
– Como?
– Com as pernas delas.
– Mainha! Ela não pode vir aqui!
– Saia, vá a casa de alguém.
– Não. Não sei quanto tempo ela vai passar aqui. Vou ficar no quarto e...
– Ela pode querer entrar lá.
– Pra quê ela vai querer fazer isso?
– Talvez por saudade. Em fim, se quiseres ficar, fique no quarto da sua irmã...
Duas horas se passaram e ela não havia vindo.
– Mainha, tem certeza que ela disse que viria?
– Eu já disse a você há 15 minutos que ela viria. E daqui a 15 minutos direi a mesma coisa. Não fique impaciente.
– Mainha... – e a campainha toca. – É ela. – e vai para o quarto.
– Olá dona Glória... ­– ela disse. E decorrem umas 3 horas de visita até que ela vai embora. – Obrigada por ter me permitido ter vindo hoje aqui. Eu precisava saber notícias sobre ele. Agradeço imensamente. – Ela olhou para mim de uma maneira tão estranha. Eu tive vontade de perguntar a ela por qual motivo ela estava fazendo. Mas contive a minha curiosidade e me despedi dela e fui pra minha casa...
Ao fechar a porta, Dona Glória foi até onde o seu filho estava e olhou para ele. – o que você me diz agora? O que você vai fazer? – ela não esperou pela resposta do filho e foi para a cozinha providenciar o jantar. Eu estava cansado. Eu queria um tempo. Mas eu não queria correr o risco de alguém se aproximar dela. Será que ela estava mesmo sentindo a minha falta? Ou estava desconfiada? Ela poderia ter ligado para mim... Mas não o fizera. Por que será? Eu... O meu celular estava descarregado? Não. Ela não ligava porque ela não queria atrapalhar o meu trabalho. Por mais vontade que ela possuísse, ela não o faria, Eu já havia percebido isso.
... Ajoelhei-me... Olhei para o céu, pedi... Implorei a Deus que ela saísse bem... Ela não poderia deixar esse mundo. Ela era muito nova... Ela não podia deixar-me... Ela havia tido duas crianças... Onde estavam as crianças?

Um comentário:

  1. Continuando com a minha novela!
    Há poucos personagens. Sei que as novelas são mais diretas, os diálogos são maiores e a narração é menor, mas achei longa de mais para ser um conto.
    Confira os outros capítulos.

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